Sinopse:
O curta acompanha uma mulher em sua busca pelo par perfeito através de aplicativos de relacionamento. Em meio a inúmeros perfis, escolhas e possibilidades, ela começa uma procura incansável por alguém que corresponda exatamente àquilo que idealizou. Porém, ao encontrar o parceiro que acreditava ser perfeito, percebe que a realidade não funciona como os perfis que aparecem na tela.
É uma animação interessante sobre o mundo dos aplicativos de relacionamento e essa busca incansável pelo par perfeito. E, sendo bem sincero, essa busca é praticamente impossível, porque a idealização nunca será completamente real. Afinal, quando idealizamos alguém, não estamos necessariamente enxergando a pessoa, mas criando uma versão dela que existe apenas na nossa cabeça.
(Análise com spoilers)
A busca da personagem principal começa justamente pela procura de alguém que possa completá-la. Ela passa por diversos perfis, avaliando as pessoas quase como produtos em uma vitrine: desliza para um lado, desliza para o outro e continua procurando algo que seja melhor
Quando finalmente molda alguém para ser seu par perfeito que corresponde ao que deseja, percebe que a idealização era perfeita apenas na sua cabeça. Na vida real, aquela pessoa possui defeitos, comportamentos e características que não estavam presentes na imagem que ela havia criado
E é justamente aí que o curta fica mais interessante. A personagem começa procurando alguém superficialmente perfeito e, depois, acaba se tornando parte do próprio problema que aparentemente criticava
Ela chega ao ponto de utilizar uma pessoa enquanto procura outra que considera "melhor", simplesmente por características físicas. Mais alto, mais bonito, mais interessante, mais compatível... A pessoa deixa de ser vista como um ser humano completo e passa a ser reduzida às suas características. Ela não enxerga quem a pessoa é, mas apenas aquilo que ela pode oferecer.
E isso me fez pensar bastante no conceito de “amor líquido”, desenvolvido pelo sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman. Para Bauman, os relacionamentos modernos tendem a ser mais frágeis, instáveis e facilmente substituíveis. Em uma sociedade na qual existem inúmeras possibilidades ao alcance de um toque na tela, pode surgir a sensação de que sempre existe alguém "melhor" esperando pelo próximo deslize
O problema é que, quando acreditamos que sempre podemos encontrar uma opção melhor, nunca estamos realmente satisfeitos com a pessoa que temos ao nosso lado
Os aplicativos tornam isso ainda mais evidente porque transformam parte da experiência de conhecer alguém em uma espécie de catálogo. Você observa uma foto, uma descrição e algumas características e decide rapidamente se aquela pessoa merece ou não sua atenção. É uma forma extremamente superficial de conhecer alguém, porque elimina justamente aquilo que torna uma pessoa complexa, sua história, seus defeitos, suas contradições e tudo aquilo que não cabe em uma fotografia.
E existe uma ironia muito boa nisso, a personagem se torna aquilo que estava procurando
Talvez o ambiente tóxico tenha tornado ela tóxica. Ou talvez esse ambiente simplesmente tenha revelado uma característica que já estava presente nela: sua própria superficialidade. Ela queria ser escolhida pelo que imaginava representar, mas também começou a escolher os outros exatamente pela mesma lógica.
O curta também toca em uma questão muito atual, será que estamos procurando uma pessoa ou apenas um conjunto específico de características? Alto ou baixo. Bonito ou feio. Engraçado ou chato. Rico ou pobre. Compatível ou incompatível
No meio de tantas classificações, acabamos esquecendo que existe um ser humano do outro lado da tela
E talvez seja essa a grande tragédia apresentada pelo curta. Não é apenas a dificuldade de encontrar o amor, mas a transformação do próprio amor em um mercado de possibilidades infinitas, no qual as pessoas podem ser descartadas assim que deixam de corresponder às expectativas
Minha nota para esse curta é 3,5/5. É uma animação interessante, principalmente pela crítica à superficialidade dos relacionamentos modernos e à maneira como a tecnologia pode transformar pessoas em opções facilmente substituíveis