Tenho 34 anos e estou há pouco mais de 3 meses em transição de gênero.
Ainda me sinto muito no começo de tudo. Às vezes olho para algumas fotos e consigo perceber pequenas mudanças que me deixam feliz. Em outras, só consigo enxergar todas as coisas que ainda me incomodam.
Tenho muitas inseguranças com meu rosto, meu cabelo, meu corpo e, principalmente, com a possibilidade de nunca conseguir me enxergar da maneira que gostaria.
Para mim, essa jornada é muito mais sobre me sentir bem comigo mesma do que sobre qualquer definição. Quero olhar no espelho e reconhecer a pessoa que está ali. Quero me sentir bonita, feminina e confortável com a minha aparência.
Quero conseguir usar uma roupa, tirar uma foto ou simplesmente sair de casa sem ficar pensando o tempo todo em como estou sendo percebida.
E talvez uma das coisas que mais me assustam seja a idade. Comecei essa caminhada aos 34, depois de muitos anos vivendo de uma maneira que não parecia realmente minha. Às vezes tenho medo de ter começado tarde demais e de que meu rosto e meu corpo nunca cheguem perto daquilo que imagino para mim.
Minha ansiedade ficou tão alta no começo da transição que acabei fazendo meus primeiros exames hormonais antes de completar 3 meses. Os resultados foram:
• Testosterona total: 15,3 ng/dL
• Estradiol: 204,5 pg/mL
• Prolactina: 28,3 ng/mL
Foi um daqueles momentos em que números no papel ajudaram a tornar todo o processo um pouco mais concreto para mim.
E eu também tive a sorte de encontrar muito mais apoio do que imaginava.
Uma das pessoas mais importantes nessa trajetória é a Prii, que acabou se tornando um “Anjo na minha vida”. Hahahaha.
Ela tem me apoiado bastante nessa trajetória. Está comigo praticamente todos os dias, ouvindo minhas reclamações, meus dramas, minhas inseguranças e minhas disforias. Muitas vezes eu chego completamente convencida de que tudo está horrível, e ela está lá tentando me fazer enxergar algo que eu não consigo enxergar naquele momento.
Ter alguém que simplesmente me escuta, sem me julgar, fez uma diferença enorme.
Também tive a sorte de estar, atualmente, em um emprego que me respeita, me aceita e me apoia. Isso é algo que eu não considero garantido e pelo qual sou muito grata.
Minha mãe me apoia. Meu pai está em uma posição mais de “okay, estou aqui”, e minha irmã tem sido incrível comigo — é como se fôssemos melhores amigas há toda a vida.
E tenho amigos que também me apoiaram muito desde que comecei essa jornada.
Quando paro para pensar, percebo que, apesar de todos os meus medos e inseguranças, tive muita sorte nas pessoas que encontrei pelo caminho.
Ao mesmo tempo, ainda existe uma parte de mim que olha para algumas mudanças e pensa: talvez seja possível.
Não estou postando isso porque acho que já cheguei lá. Muito pelo contrário. Ainda tenho medo, inseguranças e muitas coisas que gostaria de mudar.
Estou postando porque estou tentando descobrir até onde posso chegar — e porque, pela primeira vez, sinto que talvez exista uma versão de mim na qual eu consiga realmente me sentir bem.
Essa foto representa bastante o momento em que estou agora: não exatamente quem eu era, mas também ainda não a pessoa que espero me tornar.
Só... no meio do caminho.