r/PastaPortuguesa • u/ohmannotagaintwice • 11h ago
Lungo-Spaghettoni Tive que ir fazer um turno a um bar de p****
Conheço um tipo chamado Esteves Mendes. Este gajo está sempre a arranjar-me biscates. Pinturas, mudanças, um evento aqui, um bar ali. Nunca me diz que não a trabalho e eu nunca digo que não a dinheiro fácil.
Um dia liga-me: "Ó maninho, precisava de ti para um bar. É mesmo a tua cara". Digo que sim sem pensar duas vezes, porque é o Esteves Mendes, e o Esteves Mendes sempre foi correto comigo.
Nos dias seguintes vai-me deixando cair detalhes, um a um, como quem não quer a coisa. "Ah, o consumo mínimo vai ser 50 euros." Top, deve ser um sítio chique. "Ah, e vai ser só gajas lá dentro." Ok, "ladies night" é uma estratégia, né?
No dia antes do primeiro turno, o Esteves Mendes diz-me para ir lá. Vai-me fazer a "introdução ao espaço". Ele abre a porta e a primeira coisa que vejo são sofás, cadeiras e quatro palcos.
Com varão.
Ficou tudo claro como um aeroporto. Quero ir-me embora. Mas já disse que sim, já falei com a família toda sobre o "trabalho novo", e sinto aquela vergonha específica de recuar de uma coisa que já anunciaste. Decido ficar o turno porque me estão a pagar 10 euros à hora - algo que eu achava bom - e eu preciso do guito.
O Esteves Mendes apresenta-me ao resto da equipa como se estivesse a apresentar um estagiário de contabilidade. "Este é o puto que vos falei, vai estar no balcão." As mulheres cumprimentam-me com uma tranquilidade que me deixa mais desconfortável do que se estivessem estranhas.
Antes de me pôr atrás do balcão, o Esteves Mendes faz-me o onboarding corporativo. Explica-me os preços como se estivesse a apresentar um menu de pastelaria: um copo de sumo ou água, servido como bebida "delas", é 15 euros. Um copo com álcool a sério sobe para 25 ou 30. Garrafas de whisky ou champanhe, 200 para cima. Nenhum preço está anunciado portanto tenho que anotar no telemóvel e ir lá ver.
"Os copos delas são nove partes água ou sumo, uma parte álcool" diz ele, como quem explica uma receita de família. Percebo ali, com um misto de horror e admiração técnica, que uma parte do meu trabalho vai ser literalmente fabricar bebidas falsas para mulheres continuarem sóbrias uma noite inteira enquanto cobram a clientes que pensam estar a pagar álcool a sério. Não ensinam isto no curso a um gajo.
A noite decorre e eu observo tudo. Antes de mais, quero deixar aqui um elogio à equipa feminina. As mulheres trabalham com uma disciplina que eu nunca tinha associado a uma noite de copos: abordam o cliente, sentam-se, conversam dez ou quinze minutos, sugerem a primeira bebida. Se o cliente não quer pagar mais, despedem-se com um sorriso e vão para a mesa seguinte, sem drama, sem mágoa, como quem fecha uma reunião e passa à próxima da agenda. Elas são estratégicas, socialmente influentes e capazes de fazer com que qualquer coisa aconteça dentro daquelas paredes. Seriam políticas de sonho.
Às vezes um cliente pede um "privado" a uma das mulheres, e é aí que entra um armário de dois metros a quem todos tratam por Bino. A frase de Descartes "penso logo existo" coloca o Bino na categoria de não existente, porque ele nunca pensou. A função do Bino é contar o tempo, e ele é obcecado com o seu relógio."garantoqueostrintaminutossãotrintaminutosnemmaisumnemmenosumsenãoapanho-osefodo-lhesofocinho". Fala com tanta rapidez como orgulho.
O Esteves Mendes aparece atrás do balcão a meio da noite, dá-me uma palmada nas costas e diz "então, estás a gostar?" com um entusiasmo genuíno. E é assim: a noite não estava a correr mal. Acho que não cometi crime algum. Mas percebo ali, com uma clareza total, que para o Esteves Mendes é só um bar com mais varões e mais água disfarçada de whisky. E isso está-me a deixar desconfortável.
Fecho o balcão às tantas da manhã, conto a caixa, e o Esteves Mendes paga-me ali mesmo. Dá-me 300 paus - 4x o valor combinado. Ele diz que podemos trabalhar a recibos, tudo certinho, e que conta comigo nos próximos dias. Estou meio abesbílico. "E olha, deixaram-te uma nota de 100 como gorjeta."
Eu vou para casa com 400 paus na mão - o que eu fazia em quase 2 semanas de trabalho. O dinheiro realmente muda as perspetivas porque agora estou a pensar que realmente isto da prostituição é uma injustiça para as mulheres e deviam legalizar isto tudo.
Chego a casa e meto o guito num frasco para pagar contas. Fico a pensar num sonho que eu e a minha mulher temos: comprar uma casinha a 200km daqui. Deito-me na cama. Acordo de manhã com a mulher a perguntar-me como é que estavam 400 paus na entrada. Conto-lhe tudo.
A minha mulher está a olhar para mim como uma grande-mestre de xadrez para aproveitar o máximo esta jogada financeira. Eu disse-lhe que não sabia se isto era moralmente correto e ela diz "que se foda o moralmente, caralho, vamos comprar uma casa". Sentido o tremendo apoio da minha mulher, vou para o bar outra vez.
Noite a seguir o Esteves Mendes pergunta-me se posso ficar até às 8 da manhã e que me paga a triplicar. A íris dos meus olhos transformou-se em símbolos de euros como os cartoons. Claro que fico, chefe.
Passa-se uma hora e entra lá o meu tio.
Foi como um duelo do velho oeste. Não sabíamos quem ia disparar primeiro. Eu estou tenso. Ele está tenso. Nenhum dos dois faz um movimento brusco. Ele aproxima-se lentamente. Está sentado ao balcão. "Se tu não disseres nada eu não digo" . Apertei-lhe a mão e perguntei-lhe o que queria. Ele diz-me que quer um Blue Curaçao com Coca-Cola - a bebida favorita da Jéssica, uma das melhores da casa. Topei a estratégia: ele pedia-me a bebida antes de ir ter com ela e dava-lhe a bebida com álcool, e só depois pedia outra. Apercebo-me que o meu tio sabe demasiado sobre o funcionamento deste bar. Meia hora depois está a ir para um dos palcos e a fechar a cortina. Estou a pensar no quão divertido vai ser o próximo almoço de família.
No entanto, foi a única vez que senti este stress. Durante outras noites, foram passando lá outras pessoas conhecidas, mas o negócio foi sempre este: tu não contas, eu não conto.
Passam-se algumas semanas e eu estou a ganhar uma média de 40 euros por hora. Cumprimento e trato por tu todos os putanheiros daqui da zona. Sou amigo de dealers, pessoal manhoso, pessoal que já esteve preso e não sei como me sentir quanto a isso. Estou a arranjar biscates fora do bar para outros serviços de pintura e jardinagem através de clientes. A vida está boa.
Uma noite, um cliente bêbado decide que eu, atrás do balcão, sou o responsável pelo facto de a mulher com quem estava a falar ter ido embora mais cedo. Começa a subir o tom, a apontar o dedo e eu já estava a preparar a conta do meu dentista. O Bino aparece do nada. Põe-se entre nós, todo ele parede cimentada com tijolo. "O rapaz só serve bebidas," diz, devagar, cada palavra bem separada da outra pela primeira vez desde que o conheço. O olhar do Bino estava-lhe a sugar a alma por todos os poros e quanto mais tempo ele ficasse, mais o Bino o possuía. O homem diz 3 ou 4 palavras e o Bino puxa-o por uma orelha para o fundo do bar, saca-lhe o dinheiro das bebidas, pede-me o troco e manda-o dali para fora. Volta para o seu posto, de olho no relógio, à espera do próximo cronómetro a começar.
Nunca mais tive situação alguma de porrada ou conflito tão tenso como este.
Um dia são 21h30 e estou a comer uma boa sopa. Só temos 3 pessoas lá no bar. Do nada, uma porta é aberta ao pontapé. Um estrilhaço enorme começa a acontecer nas salas de trás e está lá um monte de pessoas aos berros. 4 polícias aparecem à porta do bar e dizem que tem qualquer documento e autorização de qualquer coisa. Eu estava em pânico.
O Esteves Mendes tenta o que qualquer homem numa posição destas tentaria: sair pela porta principal como quem só vai só fumar um cigarro lá fora. Não resulta. Um agente intercepta-o. O Esteves Mendes tenta explicar que "isto é só um bar normal, sr. agente" enquanto, atrás dele, duas mulheres saem a correr descalças pela sala principal. O Bino, por outro lado, decidiu fugir pelas traseiras. Correu, saltou uma grade baixa que separa o parque de trás do terreno vizinho, e ficou ali preso. A polícia só reparou nele 30 minutos depois. Fico a vê-lo agitar-se como se fosse um sapo de 2 metros virado do avesso. Quando o foram tentar ajudar, tentaram tirar-lhe o relógio. Ele deu um pontapé a um polícia.
O Esteves Mendes foi acusado de lenocínio. Nenhuma das mulheres da casa foi acusada de algo. O Bino foi julgado apenas como homem estúpido. Mas eu enfrentei o julgamento social, porque a terrinha fala.
Depois da rusga, muita gente me começou a procurar e a perguntar o que se tinha passado. Queriam todos saber a cusquice. Apercebi-me que toda a gente sabia que eu trabalhava lá. Dia após dia, tento arranjar um novo emprego mas a vida não me cai bem. Os meus amigos do bar deixaram de me arranjar biscates. Mas tinha poupado dinheiro e consegui comprar a tal casinha com a minha mulher. Fomos para uma terra nova.
Na terrinha nova, procurei emprego num bar lá. Fui aceite.
Na apresentação, o gerente diz-me que o bar "está sempre cheio de mulheres". Eu levantei-me e fui embora.